SABER CUIDAR
NÃO TEM NADA MELHOR PRÁ FAZER?
VÁ CUIDAR DA SUA VIDA!
Ana Rita Ferraz
INTRODUÇÃO
A história está intimamente ligada à arte contá-la. Como “arte”, difere do relato informativo com o qual comumente nos ocupamos. Inspiro-me no filósofo alemão Wal-ter Benjamin , bem como nas comunidades que ainda hoje se reúnem para ouvir e narrar ao modo dos antigos; e também em minha mãe, em Zé Onça, em Maria Helena, em Vanda Machado, em Carlos Petrovich, em Betti Coelho, e em tantos contadores.
Benjamin diz que o narrador não está interessado no “puro em si” da história, mas, antes, mergulha-a na sua vida para só então contá-la. Muitos já ouvimos dizer que “quem conta um conto, aumenta um ponto”; dessa perspectiva, só é um bom narrador aquele que é também um inventor do “causos”. E se de boca em boca, ou de corpo em corpo, as histórias vão passando, logo estaremos tecendo a memória de uma comunida-de.
Mas isso tudo é para dizer que vou lhes contar uma história que se passou comi-go. É uma história de cuidado, e é também um conselho. Um conselho não se traduz como resposta a uma pergunta, mas numa sugestão para a continuidade de uma narrati-va (BENJAMIN, 1994); e essa, em especial, vem de longa data. Se bem apurarem os ouvidos, ou melhor, a sensibilidade, pois não só com as orelhas se escuta, poderão reco-nhecer nela traços familiares.
O cuidado tem íntima relação com essa comunidade de ouvintes e de narradores, na medida em que implica em envolvimento. Envolver algo ou alguém é encantar, e também conter, cobrir e misturar. Essa nossa disposição no Programa Paz, Unidade e Diversidade deve realizar-se como ação, numa experiência que se propõe coletiva, e não num algo a ser ensinado: falamos de aprender na convivência. E como sempre que se fala em aprender, perguntamos logo, viciados nos fins utilitários que somos, “aprender o quê?”, antecipo: a (re)encantar nosso modo de estar no mundo e a cuidar da vida. Afinal, pensamos mesmo que não temos nada melhor para fazer.
A HISTÓRIA
Estava mudando de apartamento. Os móveis e utilidades para o translado eram escassos, contrastando com a quantidade de caixas de papéis e de livros, demasiados para a casa nova. A necessária redução do acervo, ao tempo que era penosa, possibilita-va-me (re)visitar as intensidades do meu currículo oculto.
Imersa em lembranças, coagulada num tempo pretérito, eu (re)significava afetos e trajetos enquanto desvendava pequenos segredos esquecidos. Sentada no chão, ladea-da pelos volumes, lia poemas e cada recadinho anotado ao acaso em post fixes, para somente após minuciosa avaliação decidir o seu destino.
“Minha filha, repare nas cheias do Itajaí. Quando o rio sobe, ele leva tudo, e as pessoas agarram apenas o possível”, dizia meu pai, nordestino que conhece Santa Cata-rina e o seu rio, de ver e de ouvir falar na TV. E ao me flagrar em estado meditativo diante de alguma página, vaticinava sorrindo: “O rio Itajaí já passou? Deixa o rio passar; ele sempre passa”. Eu procurava me informar sobre o tal rio que queria me roubar as lembranças, enquanto me agarrava com desespero em alguma carta de amor.
A despeito do meu apego, mudei e comecei, afinal, a atentar para os movimentos do rio. São muitos os braços do Itajaí; é grande o seu abraço. Às vezes, belo e manso, parece conformar-se às margens que crescem com as cidades. Contemplava-o domesti-cado e contido numa fotografia qualquer, mas era a voz do meu pai que eu ouvia – “Deixa o rio passar, minha filha; ele sempre passa”. E também a de Adélia Prado - “A-quilo que a memória amou fica eterno". Apurava os ouvidos para bem escutá-los; para bem escutar o rio.
Até que um dia qualquer, sem aviso, o Itajaí derramava e se misturava com a vida ribeirinha. Abundavam suas águas, revoltando-se contra as beiras. Chovia sem pa-rar, e sem parar choravam os que como náufragos tentavam salvar a história. Diante das notícias de desaparecimento de bairros inteiros, dos lamentos daqueles que perdiam as suas casas e entes queridos, eu filosofava: “no tempo das cheias, muitas vezes o único possível é o ‘si mesmo”. Repetia-me o curioso caso do rio sempre que me flagrava de-masiadamente apegada. Mas o que significava “si mesmo” ?
O QUE A HISTÓRIA FEZ COMIGO
Este ano a natureza foi implacável na sua desmedida. Fez-nos pasmar diante da força das águas do Itajaí, e da revelação da transitoriedade e interdependência funda-mental dos seres. Espantada percebi que o homem e a sua humanidade não são a medida de todas as coisas. Contrariando Protágoras, o grego que afirmava essa máxima, certa-mente os peixes do Itajaí, caso soubessem da sua “peixidade”, também pasmariam de assombro ao flagrarem-se nadando pelas ruas de Blumenau. Ao se misturar à vida ribei-rinha, o rio me ensinou que o “si mesmo” o inclui.
Talvez por isso todo o país tenha se mobilizado em ações de solidariedade e de cuidado. Muitos abandonaram seus lares e rumaram em caravanas de auxílio para Santa Catarina; outros tantos fizeram doações de alimentos, dinheiro, remédios e roupas. O rio, ao transpor as suas margens, provocou fissuras nas fronteiras sociais, econômicas e cul-turais que segregam os grupos humanos – é sempre assim com as grandes catástrofes.
Nas zonas atingidas, aqueles que conseguiram preservar as suas casas abrigam, ainda hoje, famílias inteiras, “forçados” a uma hospitalidade incondicional – a natureza nos favoreceu com o imponderável, possibilitando-nos a inclusão do estranho e da sua gramática, ao tempo que potencializou a tensão própria do encontro dos diferentes. O acolhimento do Outro resulta na escuta dele e também na minha própria; e o “si mes-mo”, dessa perspectiva, só pode ser vivido na medida em que o envolve.
É curioso que a palavra incluir também me remeta a envolvimento e, por conse-guinte, a cuidado. Derrida falou, num dos seus seminários, que o ato de hospitalidade é um ato poético. Há uma notícia na Internet sobre os desabrigados em Santa Catarina, dizendo que um homem recebeu na sua casa, 21 famílias. Fico imaginando, ao modo de uma criança, encantada, o tamanho do poema que estão recitando. E nesse momento, apuro os ouvidos e escuto o rio, e escuto o poema, e ao escutá-los, escuto-me: há abertu-ra e mutualidade; há comunhão. Estamos tão distantes e irremediavelmente entrelaçados como co-partícipes de uma dança cósmica. Este é o sentido do cuidado: o envolvimento dos corpos dos dançarinos entre si e com a música, e com o palco e o cenário onde dan-çam.
E dançando com o rio aprendi que salvar a “si mesmo” é deixar-se ser como ele: sempre passando, sempre diferente, sempre outro, mas o mesmo Itajaí. A negação do devir originário promove o desencantamento e o afastamento do mistério que nos co-necta com o sagrado. Mas aí a natureza que teimamos silenciar, dá mostras de professo-ra e alardeia a sua fé na vida, desacomodando-nos. Sim, porque esse é o papel de todo mestre: provocar para o espanto. E numa majestosa aula, sempre inaugural, o rio afirma com as suas águas que a renúncia à estabilidade e a segurança é o que nos possibilita a nossa verdadeira humanidade. A escuta poética da natureza restaura, então, o sentido sagrado do co-pertencimento, anunciado pelo Itajaí.
Num vai e vem, as águas lentamente começam a baixar, como acontece com os rios Nilo, São Francisco e tantos outros. Além dos destroços, o Itajaí devolve a terra fertilizada com o húmus. [Húmus e homem têm a mesma raiz]. É chegada a hora do cultivo; dele dependerá a nova safra.
A tormenta apontou formas de socialidade fundadas na convivência comunitária e na solidariedade. Devemos aprender com o rio e com a natureza em geral, uma outra ética: a de deixar-ser os seres na sua plenitude. Esse modo de estar na vida traduz numa relação amorosa com ela. Deixar-ser não implica em consentimento, mas numa convo-cação - chamamento para a vocação originária dos seres. Essa é uma atitude de cuidado, porque deixar-ser necessariamente é ser com o outro num eterno movimento de criação e de desvelamento.
O RIO DO MEU QUINTAL
De longe, aqui da Bahia, sigo as notícias do Itajaí. Ao escutar o alerta, disponho-me ao cuidado. Cuidar, como diz o amigo Moysés Aguiar, exige delicadeza e generosi-dade para acolher o amado na medida das suas necessidades e desejos. Demanda tam-bém o deixar-se cuidar, pois que é via de mão dupla. Cuidar da natureza é deixar-se por ela envolver.
Este ano meu pai lamentou: “Aqui no Nordeste, quando vem a seca, as pessoas nada perdem, pois nada mais têm a perder”. Disponho-me ao cuidado? A catástrofe co-tidiana não me (co)move? O distante protege-me do trato íntimo próprio do cotidiano? O próximo não toca a minha pele? A distância é um fato lógico?
A naturalização da miséria imposta pela seca no semi-árido, a paisagem da mi-nha janela, o vizinho que teima em deixar o portão do prédio aberto, o verdureiro que divulga seus produtos na pracinha aqui em frente, e também a terra de onde ele colhe aquilo que vende, assim como o Itajaí, são todos meus próximos. Alguém me contou que, certa feita, perguntaram ao Dalai Lama o que fazia para contribuir com a luta pela preservação do planeta: “Desligo a luz da sala onde estou, ao sair”. Simples, cotidiano e grandioso: cada pequeno e corriqueiro ato nos (co)move ao cuidado.
Cuidar requer delicadeza. É preciso cultivar o desapego: manter as mãos e o co-ração abertos para deixar-ser. E ao deixar-ser a paisagem, o vizinho, o verdureiro e a sua terra, também deixo-ser o rio Itajaí, o Nilo, o São Francisco, e a mim mesma. E o meu próximo do semi-árido, pergunto-me? Apagar a luz é um ato poético e político; assim como contar histórias, mantendo-as vivas e derivando aquelas já contadas. Assim po-demos encantar desertos, humificando-o.
Essa abertura incondicional é o que me permite ser atravessada pelas águas, por-que o rio sempre passa, deixando-me pronta para o novo. Ao ser atravessada sinto-me também banhada e acariciada. As águas despertam a minha sensualidade e a minha sen-sibilidade poética. Mas vejam que essa é, também, uma travessia cheia de tensões, pois se assim não fosse, não haveria diálogo; se não houvesse a avalanche haveria apenas represas e grandes cidades de concreto. Vazias. Desertos. O rio nos dá mostras da diver-sidade, da unidade e da paz que podemos encontrar na convivência amorosa dos seres.
“Não tem nada melhor para fazer? Vá cuidar da sua vida!”, dizemos. Esse en-contro é uma alegoria que trata do cuidado com a vida. Sim, isso é o melhor que pode-mos fazer: cuidar da vida. Seminário tem a mesma raiz de sêmen, de semente, de se-menteira. Cuidar é deitar semente num berço, ou bem pode ser numa cova, se penso morrer e viver como o mesmo. Deitá-la e cobri-la para seu sonho de rebento. Este semi-nário é, então, o encontro de uma comunidade agrícola: iremos todos preparar a terra, deixá-la novamente virgem e fecundá-la, deitando nela a nossa humanidade esquecida. Esquecida?
“Aquilo que a memória amou fica eterno", mais uma vez diz Adélia Prado. Aí coloco a mão no peito, fecho os olhos, respiro profundamente e apuro os ouvidos: ela pulsa intensa; a vida. Há vida. E se há vida, há movimento, há o Outro, e há também o rio Itajaí que sempre passa: “O rio Itajaí já passou? Deixa o rio passar, minha filha. Ele sempre passa”.